quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Coluna O último Paddock! I O Calvário da Aston Martin

 

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O ronco do motor Honda no AMR26 deveria soar como um aviso para o resto do grid, mas em Sakhir, ele foi pouco mais que um sussurro interrompido.
Após um inverno de expectativas estratosféricas — alimentadas pela chegada do gênio Adrian Newey e uma parceria exclusiva com a fabricante japonesa — a Aston Martin saiu dos testes de pré-temporada não como uma candidata ao título, mas como uma equipe em busca de respostas básicas.

Enquanto os rivais acumulavam quilometragem, os mecânicos de Lawrence Stroll acumulavam frustração atrás das cortinas fechadas da garagem.

Obviamente, o início de novo regulamento não é fácil para nenhuma equipe. Os carros da Fórmula 1 em 2026 passam pela maior revolução técnica das últimas décadas, focando em sustentabilidade, agilidade e novas tecnologias de ultrapassagem.
Apesar de tantas mudanças nenhuma das 11 equipes sofreu tanto para andar com o carro na pista quanto a Aston Martin.

Vindo de um plano audacioso do Lawrence Stroll de 5 anos desde que transformou a Racing Point na marca de carros verdes britânica, a equipe ainda não conseguiu emplacar. Contratou bons engenheiros, investiu bilhões em uma nova fábrica e em um novo túnel de vento, conseguiu seduzir o gênio das pranchetas da RedBull, Adrian Newey e fechou um belo acordo para ser a equipe de fábrica da Honda.

Mas o que deveria ser o início de uma era gloriosa com a nova unidade de potência e o design de Adrian Newey acabou se tornando um exercício de limitação de danos. A equipe encerrou os testes de pré-temporada em Sakhir como a equipe que menos rodou no grid, acumulando apenas 334 voltas (em comparação às quase 800 da Williams). O sentimento nos boxes é de que a equipe está "em contra-pé" para a abertura da temporada. 

O "Coração" do Problema: Unidade de Potência Honda

A transição para os novos motores Honda de 2026 foi a maior fonte de dores de cabeça.

Falhas na Bateria (Energy Store): O principal gargalo foi o sistema de armazenamento de energia. Problemas recorrentes de confiabilidade na bateria impediram stints longos.

Escassez de Peças: A situação foi tão crítica que a Honda "ficou sem peças" de reposição no último dia. Isso forçou a equipe a encerrar os testes três horas antes do previsto na sexta-feira, após completarem apenas seis voltas intermitentes. 


 
O Olhar de Alonso: O Relógio que não Para em Sakhir

Para Fernando Alonso, 2026 não era apenas mais uma mudança de regulamento; era a "Última Dança" meticulosamente planejada com as peças que ele sempre quis: o gênio de Newey e o suporte de fábrica da Honda. No entanto, a imagem que dominou os boxes no Bahrein não foi a do bicampeão devorando as zebras, mas a do piloto de 44 anos, de braços cruzados, observando os mecânicos desmontarem o assoalho do carro pela quinta vez no mesmo dia.

A frustração de Alonso é cirúrgica e silenciosa. Diferente dos anos explosivos de McLaren-Honda, o espanhol agora adota uma postura de "realismo ácido". Ao registrar apenas fracas 334 voltas no total da equipe, Alonso sabe que cada minuto perdido na garagem é um dado a menos para calibrar o complexo sistema de recuperação de energia (ERS).

Há um fantasma de ironia no ar. Alonso reencontrou a Honda em um momento de falha sistêmica, e o déficit de 1.4s para os líderes é um soco no estômago de quem esperava lutar por vitórias desde a primeira volta.

A Linguagem Corporal: Nas entrevistas, o tom foi diplomático, mas o olhar nos monitores de tempos dizia o contrário. Para um piloto que extrai 110% de qualquer equipamento, não ter equipamento sequer para completar uma simulação de corrida é o pior cenário possível.

"Não estamos onde queríamos estar. O potencial do carro é um mistério porque ainda estamos tentando fazer o sistema elétrico 'conversar' com o motor a combustão", disparou Alonso, em um resumo seco do que foi sua pré-temporada. 


 
O Conflito de Empacotamento

Adrian Newey é conhecido por projetar carros com a traseira extremamente compacta para maximizar a eficiência do difusor. No entanto, a nova PU Honda de 2026, com o aumento da dependência elétrica (quase 50% da potência total vindo do ERS), exige radiadores maiores e uma gestão térmica agressiva.

O design de Newey parece ter "estrangulado" os componentes da Honda. O superaquecimento da bateria nos primeiros estágios de cada saída de box forçou a equipe a abrir fendas de ventilação extras, destruindo a limpeza aerodinâmica do carro. 

A Desconexão do ERS (Sistema de Recuperação de Energia)

Diferente dos anos anteriores, o MGU-H (que recuperava energia do turbo) foi banido. Agora, toda a recuperação depende do MGU-K (cinético) e da frenagem.

A Falha: A Aston Martin enfrentou problemas graves de software de mapeamento. O motor a combustão e o motor elétrico não estavam "conversando". Isso resultou em uma entrega de torque inconsistente, dificultando a tração de Alonso nas saídas de curva e gerando instabilidade na frenagem eletrônica (brake-by-wire). 

Vibrações Harmônicas e Transmissão

Relatos do paddock indicam que a nova caixa de câmbio da Aston Martin — desenvolvida internamente para se ajustar ao motor Honda — sofreu com vibrações excessivas em altas rotações.

Consequência: Essas vibrações causaram microfissuras em sensores vitais, levando aos desligamentos repentinos que vimos na sexta-feira de testes. Sem sensores confiáveis, a Honda entrou em "modo de segurança", impedindo qualquer volta rápida real.

No fim das contas, O AMR26 é um carro com conceito aerodinâmico de ponta, mas que está sendo "vítima" de uma arquitetura interna que ainda não amadureceu.
A equipe tem o chassi mais bonito do grid, mas o sistema nervoso (eletrônica e integração) está em colapso.

Veredito: O Despertar de um Gigante ou o Nascimento de um Fiasco?

O que vimos no Bahrein não foi apenas uma pré-temporada difícil; foi o choque de realidade de um projeto que tentou abraçar o futuro antes mesmo de aprender a caminhar no presente.
A Aston Martin chega a Melbourne não como a "caçadora de gigantes" que o marketing da Aramco prometeu, mas como uma equipe em estado de emergência.

O gênio de Adrian Newey e o poder de fogo da Honda são garantias de que o AMR26 vai evoluir. O problema é que, na Fórmula 1 de 2026, o desenvolvimento é uma corrida armamentista de 24 etapas. Se a integração motor-chassi não for resolvida até a perna europeia, o "projeto dos sonhos" de Lawrence Stroll corre o risco de se tornar o erro de cálculo mais caro da história do esporte.

O Bahrein nos disse que o carro é rápido no papel, mas frágil no asfalto. Em Melbourne, saberemos se a Aston Martin tem um plano B ou se 2026 será um ano de "sacrifício" em nome de um aprendizado doloroso.

Sobre o autor.

Apaixonado por motores e viciado em automobilismo, acompanho a Fórmula 1 há mais de duas décadas, sem perder uma boa resenha de paddock. Além do circo da F1, sou entusiasta da resistência no WEC, da agressividade da Nascar e de diversas outras categorias do esporte a motor. Fora das pistas, sou gestor de TI com especialização em Ciência e Análise de Dados — o que talvez explique meu fascínio pela telemetria e precisão dos carros.
Quando não estou analisando dados ou assistindo a uma corrida, aproveito a vida com um bom churrasco, futebol, videogames e as novidades do mundo tech. Meu grande objetivo? Sentir a energia das arquibancadas de Interlagos de perto.

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